Blog: Doomscrolling, quando o excesso de notícias começa a afetar sua saúde
InfográficoVocê pega o celular apenas para verificar uma mensagem. Alguns minutos depois, está lendo sobre violência, doenças, crises econômicas, guerras, acidentes e discussões nas redes sociais. Quando percebe, passou muito mais tempo do que pretendia diante da tela, e provavelmente está mais preocupado do que antes.
Esse comportamento tem um nome: doomscrolling.
A expressão combina as palavras inglesas doom, associada a desgraça, catástrofe ou pessimismo e scrolling, o movimento de rolar continuamente a tela do celular.
O doomscrolling descreve o hábito de consumir repetidamente conteúdos negativos ou preocupantes na internet, mesmo quando essa exposição já está provocando desconforto.
Por que é tão difícil parar de rolar a tela?
O fenômeno não pode ser explicado apenas como falta de disciplina.
Nosso cérebro naturalmente presta atenção a possíveis ameaças. Esse mecanismo, conhecido como viés de negatividade, ajudou seres humanos durante milhares de anos a identificar perigos rapidamente.
No ambiente digital, entretanto, existe uma diferença importante: as ameaças nunca acabam.
Depois de uma notícia preocupante aparece outra. Depois, um vídeo. Em seguida, um comentário indignado, uma tragédia ocorrida do outro lado do mundo ou uma nova previsão alarmante.
Além disso, redes sociais e plataformas digitais utilizam sistemas de recomendação que aprendem quais conteúdos conseguem manter nossa atenção. Quando interagimos com determinado assunto, podemos receber cada vez mais conteúdos semelhantes.
Forma-se um ciclo:
conteúdo negativo → atenção → interação → recomendação de novos conteúdos → mais tempo na tela.
A sensação de estar se informando
Existe ainda uma armadilha particularmente interessante no doomscrolling: muitas vezes acreditamos que estamos apenas tentando compreender melhor o que está acontecendo.
Diante de uma situação preocupante, procurar informações pode proporcionar uma sensação momentânea de controle.
O problema aparece quando buscar informação deixa de esclarecer e passa apenas a alimentar a preocupação.
Você já conhece os principais fatos, mas continua procurando novas notícias, opiniões, vídeos e comentários.
Nesse momento, mais informação nem sempre significa estar mais bem informado.
Quais são os possíveis impactos na saúde?
O doomscrolling ocasional não significa necessariamente um problema. A preocupação aumenta quando o comportamento se torna frequente e começa a interferir no cotidiano.
A exposição contínua a conteúdos negativos pode estar associada a:
- aumento da ansiedade e da preocupação;
- irritabilidade;
- dificuldade de concentração;
- sensação constante de ameaça;
- piora da qualidade do sono;
- dificuldade para se desligar das notícias;
- redução da produtividade;
- uso excessivo do celular;
- sensação de cansaço mental.
Um dos momentos mais problemáticos é antes de dormir.
Além da estimulação provocada pelo próprio conteúdo, permanecer no celular prolonga o estado de alerta justamente quando o organismo deveria começar a reduzir o ritmo.
Como saber se você está fazendo doomscrolling?
Algumas perguntas simples ajudam a identificar o comportamento.
Você abre uma rede social por poucos minutos e permanece muito mais tempo?
Costuma procurar repetidamente atualizações sobre acontecimentos negativos?
Continua lendo mesmo percebendo que está ficando mais ansioso ou irritado?
Sente necessidade de verificar notícias assim que acorda ou imediatamente antes de dormir?
Tem dificuldade de guardar o celular porque acredita que pode estar acontecendo alguma coisa importante?
Se isso acontece frequentemente, talvez seja interessante observar não apenas quanto tempo você passa conectado, mas principalmente como se sente depois desse período.
Como reduzir o doomscrolling sem abandonar a informação?
A solução não precisa ser deixar de acompanhar notícias ou excluir todas as redes sociais.
O objetivo é recuperar o controle sobre quando, quanto e como você consome informação.
Algumas medidas podem ajudar:
Defina horários para acompanhar notícias.
Consultar informações algumas vezes ao dia é diferente de permanecer conectado continuamente.
Evite notícias imediatamente antes de dormir.
Estabelecer um período sem celular antes do sono pode ajudar a diminuir a estimulação.
Desative notificações desnecessárias.
Nem toda notícia precisa chegar até você imediatamente.
Escolha fontes confiáveis.
Consumir menos conteúdo, mas de melhor qualidade, pode ser muito mais informativo do que acompanhar dezenas de publicações.
Observe o efeito emocional do conteúdo.
Pergunte a si mesmo: estou aprendendo alguma coisa nova ou apenas aumentando minha preocupação?
Interrompa conscientemente a rolagem infinita.
Levantar, conversar com alguém, caminhar ou realizar outra atividade ajuda a quebrar o comportamento automático.
Informação também precisa de limite
Nunca tivemos acesso tão rápido a tanta informação.
Isso trouxe benefícios extraordinários. Podemos acompanhar acontecimentos em qualquer parte do planeta praticamente em tempo real.
Mas nosso cérebro não necessariamente foi preparado para receber um fluxo permanente de problemas do mundo inteiro durante todas as horas do dia.
Estar informado é importante.
Estar permanentemente exposto a conteúdos alarmantes é outra coisa.
Quando procurar ajuda?
Se o uso das redes sociais ou o consumo de notícias estiver provocando ansiedade intensa, prejudicando o sono, interferindo no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos, vale conversar com um profissional de saúde.
O objetivo não é viver desconectado da realidade, mas encontrar uma relação mais saudável com a tecnologia e com a informação.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quanto tempo passei no celular?”, mas “como aquilo que consumi durante esse tempo está afetando minha vida?”