O
consultório da Internet (Parte II)
Revista
Veja – Saúde Business
Nesse
cenário proporcionado por pacientes abastecidos pela internet, as consultas
ganharam mais tempo. Segundo os médicos ouvidos por VEJA, cerca de metade de
uma consulta é gasta agora para esclarecer dúvidas trazidas pelos clientes. O
problema é que, mesmo quando reúnem dados corretos, nem sempre eles dispõem de
repertório suficiente para digeri-los. "Para convencer um paciente de que
a informação que ele traz não deve ser interpretada daquela maneira, gasta-se mais
tempo do que se leva para simplesmente tirar suas dúvidas", afirma o
especialista em reprodução humana Edson Borges Júnior. O endocrinologista
Geraldo Medeiros também põe o dedo nessa ferida. "É preocupante quando o
paciente começa a ter muita informação, mas pouca capacidade de absorção de
tudo o que lê", diz ele.
A exigência
dos pacientes de uma troca mais intensa de informações com seus médicos está
levando a que seja revisto o modelo segundo o qual o especialista simplesmente
pede uma batelada de exames, sem que o cliente seja esclarecido sobre os
propósitos dos procedimentos prescritos. Médicos que se comportam dessa forma
podem ser acusados de má prática. Em países do Primeiro Mundo, os processos
desse tipo calcados nas falhas de comunicação dos médicos já representam cerca
de 70% das ações contra eles. No entanto, apesar de todos os avanços e da
ameaça jurídica, a resistência à mudança permanece forte. Um estudo recente
publicado no The Journal of the American Medical Association, o Jama,
respeitada publicação científica americana, constatou que 72% dos médicos
americanos interrompem a fala do paciente depois de apenas 23 segundos, em
média. É bom ressaltar, contudo, que, assim como existem médicos pouco
dispostos a ouvir e conversar, existem pacientes cuja maior doença é a
inconveniência de falar em demasia. São aqueles que nunca estão satisfeitos com
o que o médico lhes diz, e que ficaram ainda mais difíceis desde que
descobriram o caudaloso manancial da internet.
A internet
está ajudando a estabelecer um maior diálogo entre médicos e pacientes, mas não
há informação colhida na rede que substitua a palavra final de um bom
especialista. Palavra final que não significa, necessariamente, veredicto sem
apelação. "O médico não é mais um deus impositivo que decide o que quer,
sem ouvir o doente, e acabou", diz o infectologista David Uip. A boa
relação médico-paciente é aquela em que o segundo, munido de todos os dados
sobre seu problema, é incentivado pelo primeiro a pesar os riscos e benefícios
do tratamento prescrito e a opinar sobre a alternativa mais adequada a seus
anseios. "A decisão compartilhada, fruto de uma conversa franca, é a
melhor solução para os dois lados, pois significa maior adesão à terapia e
menor probabilidade de desentendimentos futuros", afirma o cirurgião
cardiovascular Marco Tulio Baccarini Pires, de Belo Horizonte, diretor do site
nacional da Bibliomed.
Infelizmente,
nem todos os médicos entendem que "decisão compartilhada" não implica
"transferência de responsabilidade". Há limites para o caminho aberto
pela maior circulação de informações e pela crescente disponibilidade dos
médicos para explicar e discutir seus pontos de vista. Especialmente nos casos
mais graves. Pegue-se o exemplo de um oncologista que cuida de um doente de
câncer de próstata. É importante que a pessoa esteja ciente de que, para
tratá-la, existem três recursos: a radioterapia, a braquiterapia (radiação
direta no tumor) e a cirurgia de extirpação. E saiba também que são variáveis
os índices de sucesso e risco de cada uma das modalidades de tratamento. Mas
daí a colocar a resolução nas mãos do paciente vai uma tremenda distância. Um
artigo publicado em 2002 no Journal of Medical Internet Research, assinado por
pesquisadores da Universidade de Illinois, em Chicago, enfatiza que os doentes
querem estar bem informados sobre sua condição, sem que isso implique assumir
responsabilidade integral pelo próprio tratamento. "O médico não deve
abdicar de seu conhecimento, deixando que o doente decida tudo, com base nas
conversas que este manteve no consultório ou nos dados que conseguiu em sites
ou na imprensa", diz o cardiologista Protásio Lemos da Luz. "É como
um piloto de avião dar a um passageiro o comando da aeronave." Para
continuar na metáfora aeronáutica, podem-se adquirir noções de navegação aérea
por meio de um bate-papo com um piloto ou via internet. Mas ninguém tira brevê
dessa maneira.